Sinto que estou saindo de mim novamente, mas não se preocupe: não é para sempre. É periódico. Eu preciso disso, acho, se não não aconteceria. Minha cabeça lateja. Saí.
Não se preocupe. Eu estou bem e só quero ficar em silêncio, me esquecer por um momento. Não que eu esqueça, mas eu só não quero lembrar que eu sou eu por alguns minutos, horas. Seria como se eu dormisse de olhos abertos pra ti se eu não te assustasse. Sim, eu sei que esse sono te assusta e confesso que até eu me assusto às vezes. Eu já acostumei, é o procedimento. Não me pergunte agora como nem o que está acontecendo. Simplesmente, acontece e está acontecendo. Eu não tenho mais medo, apenas abraço este caos que é minha alma. Ela querendo escapar. Fugir. Viver. Eu já me acostumei, já faz parte de mim. O caos da minha alma faz parte de mim. Sim, eu já desisti. Não cura.
Não me sacode. Não grita porque eu não vou responder. Eu estou te ouvindo, posso até querer responder, mas não consigo, não posso. Eu vejo e sinto todas as ações, mas não tenho reação. As únicas reações que eu tenho são as químicas neste momento. Minhas lágrimas não são de tristeza; são por eu não saber o motivo da minha tristeza. Eu não consigo reagir, entende? Pode parar? Não bate na minha cabeça. A ferida da minha alma está aí e machuca. Não, minha prioridade por enquanto é a minha cabeça. Sei que tu queres ajudar, e eu quero tua ajuda. Mas não sei o que tu podes fazer, nem eu. Deve ser por isso que estou querendo me esquecer. Não quero a droga do remédio- redundante: droga, remédio, enfim. Eu estou bem. Só estou esperando ela voltar para eu escapar do silêncio. Apaga a luz. Iremos ver TV contigo depois que ela voltar.