Eu pensava que tinha passado, ou pelo menos passado o pior, mas não. A chegada em casa, faltava alguém. Meu avô morreu. A hora de ir dormir, faltava alguém. Meu avô morreu. A poltrona vazia. Meu avô morreu. Nunca mais vou ouvir "¿tudo bien corazón?" ? Meu avô morreu. Era isso que vinha na minha cabeça depois de qualquer lembrança dele: Meu avô morreu. Parece macabro ler isso, mas a palavra morrer não é tão horrível assim, mesmo usada com seu devido significado. Era vários espaços vazios que ocupavam um só vazio em mim, digo, em toda a família. Meu pai demorou 20 minutos antes de sentar na ponta da mesa, onde meu avô sentava sempre. Meu pai chorava no quarto fechado sem ninguém ver. Eu rezei, nunca rezo, mas rezei dessa vez. Depois do almoço, voltamos para nossa cidade. No elevador do meu prédio meu pai perguntou se eu lembrava do que meu avô tinha me falado pro último.
-Não lembro pai. Acho que era " te quiero mucho."
- Quase isso. Antes, ele pediu que tu visitasse mais vezes ele.
É, eu preferia ter viver sem saber o resto, não sei se meu pai inventou, mas não precisava eu acho.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
vô lima
Foi a primeira vez que vi alguém sem o coração estar batendo. A primeira vez que fui num velório e num enterro.Foi a primeira vez que ouvi o telefone tocar mais vezes que nos dias de aniversário. Foi a primeira vez que vi meu pai chorando. A primeira vez que perdi um avô. Eu tinha acabado de ler o primeiro capítulo da Menina que roubava livro. Espantei-me com a objetividade da narradora. Acho que aquelas páginas foram meu conforto na hora que meu pai ligou para minha mãe avisando que meu avô tinha falecido. Fomos nos três (eu, minha irmã e minha mãe) para o hospital. Eu pensei que veria meu avô, nunca tinha passado por um experiência assim, não sabia o que ia acontecer, nem o que estava acontecendo talvez. Em menos de meia hora havia umas 12 pessoas da família na frente do necrotério. Uma hora e meia depois, eu voltei para casa sem ver meu avô com a missão de arrumar minha mala o mais rápido possível, porque estávamos indo para cidade onde ele tinha construído a vida dele para seu enterro. 6 horas de viagem. Fomos direto para a funerária. Chegando lá, ficou um silêncio. Todos me olhavam e vinham na minha direção me abraçar dizendo uma daquelas duas frases que ninguém gostaria de ouvir. Eu fui a primeira a entra da minha família, não sabia onde ir. Havia uma parede que separava do resto. Era lá que eu veria ele? Esperei minha mãe, eu não era muita coisa sem ela naquele momento. Segurei a mão dela e fui em direção ao outro lado da parede. É, ele estava lá. Junto dele estava a camiseta com que ele jogará quando mais novo. É, era ele ali. Meu pai foi direto pra perto do caixão e não deixou nenhuma lágrima cair, mas deixou elas querendo fugir pelo canto do olho.Eu me aproximei de meu pai e o abracei. Não chorei, não tinha vontade de chorar. Fiquei me perguntando se eu amava meu avô o suficiente pra chorar no velório dele. Acho que todo mundo ficou com aquela sensação: queria te aproveitado mais o tempo com ele. Eu fiquei, mas não me importei tanto.Queria ter visto os olhos deles de novo, mas estavam fechados. Os olhos dele eram lindos...azuis, azuis. Os mais lindos que eu já vi! Eu estou conformada, ou talvez ainda não tenha caído a minha ficha.Nos últimos minutos do velório, eu chorei, mas não sabia se era por ele ou por que eu não chorava, enfim chorei. Oito homens, entre eles meu pai e meu tio, levantaram o caixão e o colocaram no carro. Meu pai disse que tinha muita gente ali, porque meu avô tinha muitos amigos. Quem sou para julgar se uma velório tinha muitas ou poucas pessoas? Acho que era mais de 8 carros seguindo o carro que meu avô estava. Não fui com meus pais, porque eles queria levar minha avó, então fui com meus tios avós mesmo. Chegamos no cemitério, no lugar ontem meu avô seria colocado. Os coveiros tiram dois saco de lixo de dentro da...cova (?) Acho que fui a primeira a me dar conta que eram os restos mortais dos meus bisavós.É, dentro de um saco de lixo. Os coveiro fecharam a... cova(?)e acabou. Voltamos para casa às 7 horas e todo dormiram, digo, tentaram dormir sem pensar no dia que acabava, o que era impossível, às 7:30.
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